quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Esparsas...




Se não existisse o feio, nada seria belo,

A paz não precisa da guerra para acontecer.

O vaso pode ser torto, mas me acostumo e o vejo perfeito.

Envelhecer o corpo é da vida, aprimorar a mente é de nós.

Na ida é longo o caminho, na volta ele diminui.

No caminho sem volta, busca-se um atalho reparador.

No início a beleza encanta e impera, mas logo é preciso mais.

Encontrar amor não é o difícil, mas sim conservá-lo.

A felicidade vem com dificuldade e se vai ao menor descuido.

O maior desafio é ser fiel.

A verdade de um não é a do outro.

O silêncio oportuno fala mais alto.

Buscar consolo no colo da mãe natureza é o segredo.

Viva, é a minha idade.

Descobrir o espelho verdadeiro é a dificuldade.

Para mudar a rota, dê o primeiro passo agora.


Agora já é outro agora...



sábado, 18 de novembro de 2017

Tanto e quanto



Sou tanto pedra quanto flor.

Sou tanto e não quanto, amar.

Sou tanto erro e não, quanto acerto.

Sou tanto racional quanto sonhadora.

Sou não tanto dócil e sim, quanto controle.

Sou tanto eu como quanto nós.

Sou tanto pedir perdão como quanto perdoar.

Sou tanto vibrante quanto indiferente.

Sou tanto angústia quanto felicidade!

Quanto e não sei tanto me conheço, portanto me desconheço.


domingo, 12 de novembro de 2017

Como chegar ao futuro?

Amplo Horizonte, 1969 - Theodoro De Bona (Brasil, 1904 – 1990)

Será que somente eu sempre pensei no futuro como um tempo inalcançável? O via como o horizonte, sei que existe e meus olhos o comprovam, mas não se chega até ele.

Também, desde pequena ouvi que precisava estudar para ser vitoriosa no futuro. E pensava: Só no futuro? E cresci com essa ideia, precisava estudar depois trabalhar, lutar, disputar, amar, chorar e rir, poupar, sofrer e perder com paciência, tudo para ter um futuro feliz. E não alcançava o futuro, parecia que a cada passo que dava em sua direção, ele se afastava dois.

Até hoje ouço esse dito popular:

“O futuro a Deus pertence.”

E ao ouvi-lo concluía: Então se é Dele, nunca será meu, para que me preparar para ele, meu prometido impossível? Noivado eterno. Parceria sem compromisso. Alimento para sonhos ou antídoto para desilusões.

E no percurso pelo caminho ao futuro, colhi vitórias, ganhei amores, sofri dores, venci desafios, conquistei sonhos e nada de chegar ao futuro, à terra prometida.

De repente minha razão condoeu-se de minha espera e me segredou:

Os diplomas, as conquistas, os amores, as dores também, os sonhos realizados, um a um, também as derrotas tudo, tudo que viveu até aqui, foram futuros alcançados.

Sim, é isso!

O agora é o futuro!

E eu não comemorei meus dias do futuro, tão envolvida que estava na procura de como chegar a ele... 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

PINCE-NEZ



Ele usava óculos desde criança. Miopia, daquelas que sem óculos só se enxerga um metro à frente. Na adolescência tentou usar lentes de contacto e não se adaptou a elas, seus olhos choravam o tempo todo. Acostumou-se com os óculos.

Tornou-se um professor de óculos. Com os anos, um professor de óculos e gorducho. Mais um tempo, um professor de óculos, gorducho e meio calvo.

A mãe, já viúva, faleceu e ele, sendo filho único, desmontou a casa dela, doou seus pertences, guardou as fotos e os óculos, que a mãe dizia ter sido do bisavô dela. Aqueles óculos o encantavam desde criança, como era mesmo que a mãe dizia chamar? Acho que era pinci-nez, e ela contava que era do século XVI. Era dourado, seria de ouro, ele se perguntava.
        
E quando o colocou no nariz, viu que as lentes estavam corretas para sua visão.

Guardou os óculos numa gaveta, e de vez em quanto o colocava e cada vez mais a atração por ele aumentava. Era uma raridade, queria usar, exibir-se com ele. Num feriado resolveu, colocou os óculos e saiu, andou pelas ruas, percebeu olhares, não sabia se eram curiosos ou de admiração pela beleza dele. Não encontrou conhecido ou amigos que poderiam fazer comentários. Voltou pra casa e continuou com ele, a mulher ainda perguntou:

_ Por que isso agora? Cadê seus óculos?
_ Sei lá, estou me sentindo tão bem com esses.
_ Você que sabe, mas é estranho, diz ela.

No outro dia caprichou no visual ao se preparar para as aulas. Pegou um guarda-pó, branco, lavado e bem passado. Ao entrar na sala de aula, os quarenta adolescentes, momentaneamente se calaram, mas logo depois muitos riram. Ele percebeu. Os colegas também fizeram piadas, ele inventou que havia quebrado os óculos antes de sair de casa.

Ao chegar a casa, a primeira coisa que fez, foi voltar para seu óculo habitual. O engraçado foi que a visão com ele ficou turva. Pensou que logo acostumaria...

Consultou um oculista que depois de examiná-lo receitou outras lentes, foi a uma ótica encomendar as lentes, colocou os óculos e a visão estava turva, voltou ao oculista que o reexaminou e confirmou as lentes e as lentes continuavam sem melhorar sua visão. Foi a outro médico, que lhe receitou outras lentes, fez outro óculos em outra ótica, e o resultado continuou o mesmo, e procurou outro médico, outra ótica, outro óculos...

Somente com o pince-nez enxergava...


Passa-se a acreditar naquilo que se repete frequentemente para si mesmo, quer seja verdade ou mentira. Isso passa a ser um pensamento dominante na mente.

Robert Collier   (1885-1950)      


sábado, 21 de outubro de 2017

Historia de um domingo



Historinha para Domingo

_Parem de brigar e arrumem alguma brincadeira! Ela ordenou aos filhos.

_ Meu Deus, preciso de alguém que me ajude! Não dou conta de tudo sozinha!

O marido nem ouvia, entretido pela música que tocava e ele até acompanhava o ritmo batendo com os dedos no sofá. Final de semana é para descansar...

_ Venham almoçar, ela chama filhos e marido.

Acabado o almoço todos se retiram da mesa, só ela fica sentada, olhando para a louça e talheres que precisam ser lavados. Se não tivesse dispensado a empregada, faria como antes, arrumava numa bacia e deixava para ela cuidar na segunda-feira e a roupa também. É verdade que tudo mal feito, mas ela, com o pouco tempo dos finais de semana fazia ainda pior! E sairia para o trabalho já cansada e irritada pela demora dos filhos em tomarem o café e pegarem seus materiais da escola, onde ela os deixaria. Estava nesses pensamentos quando o interfone toca e ela atende:

_ Queria falar com a senhora, procuro trabalho em casa de família.

Seu primeiro impulso foi dizer que não. Como contratar alguém dessa forma? Mas quando olhou para a mesa, resolveu...

_ Vou conversar com você.

Era nova, perto dos trinta anos, não tinha referências, pois era sua primeira tentativa como empregada doméstica. Mas seus olhos transmitiam paz e seu sorriso bondade.

Ela resolveu experimentar o trabalho da Graça, o nome dela. Tomaria todos os cuidados necessários para não ser surpreendida em furtos. A moça trazia pequena bagagem e ela a acomodou num quartinho da área de serviço, no meio de roupas para passar, brinquedos, ferramentas e vassouras, e tudo o que não queria dentro de casa.

Graça a cada dia a surpreendia em seu trabalho e sempre com o mesmo olhar e sorriso. Aos poucos tudo ficou em ordem, organizado e limpo. As crianças estavam mais tranquilas, alegres, o marido participante das questões dos filhos, ajudava-os com as lições e aos seus pedidos, até rezava junto com eles ao deitarem, as orações que Graça os ensinara. 

Ela estava feliz, tinha agora algum tempo só para si, coisa que desde o nascimento do primeiro filho se tornara impossível. Graça depois de um tempo passou a fazer as compras de supermercado, a ajudar as crianças se preparem para a ida à escola e passou a leva-las também. Mas ela continuou com todos os cuidados iniciais, ouviu o conselho das amigas para não amolecer com a empregada, pois isso a faria sentir-se necessária e relaxar no trabalho e também, não criar intimidades entre elas, ser sempre a patroa e ela, a empregada.

Num domingo, a família acordou e juntos foram tomar o café da manhã. Encontraram a mesa bem arrumada como sempre, bolo ainda quente, pães, sucos, frios e frutas, queijo, geléia e mel, mas estranharam a ausência da Graça. E surpresos notaram que ela se fora...

....................................................................... 


“Elias há de vir para repor tudo em ordem; digo-vos, porém, que Elias já veio; e não o reconheceram, mas fizeram dele o que quiseram.”  Matheus 17, 5-18, 11


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Assim aconteceu...


Contando conto

O relógio marcava doze horas, o sol lançando seus raios de luz sobre à cidade. Uma única nuvem no céu deslocando-se devagar até chegar à frente do sol. Talvez o calor solar a agradou, pois ela estacionou e lá ficou.

Toda escura, toda sombrosa.
Não era uma grande nuvem, mas seu tamanho foi suficiente para tirar os raios do sol que incidiam sobre a cidade.

Ninguém da cidade notou a nuvem adormecida frente ao sol naquela quinta-feira. Todos ocupados em suas vidas e nem notaram que à noite o céu só exibia estrelas, sem lua.

Amanheceu a sexta-feira e quando o sol se mostrou trouxe consigo a nuvem, ou a nuvem o acompanhou em todas suas visitas a outras paragens da Terra? Alguns notaram a nuvem imóvel. E na noite de sexta-feira apaixonados procuraram a lua e trocaram carinhos sem ela.

O sábado clareou trazendo a nuvem junto ao sol. Nesse dia muitos estranharam que apesar do céu azul não viam o brilho nas folhas das árvores e nos gramados e nas cores das flores. Mas não procuraram pelo sol, simplesmente ignoraram. Que importância tinha isso? Outros perceberam que sua sombra não caminhava mais junto deles, presa a seus pés, como nos dias de céu azul acontecia. Um preocupou-se... não tenho mais sombra? Não sou mais matéria? Morri? E olhou pro sol. Outros também olharam, e outros, e os amantes amaram-se sem lua.

Domingo nasceu também acompanhado da nuvem teimosa. A cidade em tumulto, a praça lotada de pessoas olhando para o sol com seus raios escondidos pela nuvem constante. Os repórteres de televisões entrevistando moradores, câmeras posicionadas em direção do sol escondido. Curiosos de outras cidades e jornalistas chegando para conferir o mistério. Alguns se perguntavam:

_Será efeito do buraco na camada de Ozônio? Ou causa da poluição do ar, do mar e dos rios? Ou do desmatamento? Ou é o fim do mundo?

Crianças assustadas, nem brincavam. Uma delas chama amigos e propõe:

_Vamos cantar para o sol? Quem sabe ele espanta a nuvem!

O coro infantil atraiu todas as crianças assustadas e juntas cantaram para o sol:

olho pro céu e vejo uma nuvem branca que vai passando...
olho na terra e vejo uma multidão que vai caminhando...
como essa nuvem branca essa gente não sabe aonde vai...

A nuvem, vagarosamente, foi se desfazendo aplaudida por todos na praça e... Fez-se a Luz, enquanto as crianças ainda cantavam: 


olho pro céu e sinto descer à terra o meu Salvador ...

sábado, 30 de setembro de 2017

Adeus... vou ser feliz!




Adeus apetrechos inúteis
Que não trazem felicidade
Só tomam meu tempo.
Adeus imposições fúteis
Não pode engordar,
Nada de envelhecer,
Jovem e esguia sempre!
Adeus mediocridades
Maldizeres,
Julgamentos.
Adeus falsidade
Nem por fineza,
Quanto mais por inveja.
Adeus desamor
Tem que ser amor.
Adeus inimizade
Você inexiste em mim.
Adeus indiferença
Somente atenção.
Adeus orgulho
Você não é bom.
Para tudo isso, digo Adeus!
Até nunca mais.
Fui...

Olá felicidade, cheguei!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Para ser primavera



Cumpra as leis da natureza
Sem desvios de caráter
Nem preceitos rebater
E reine com clareza.
Exerça sua missão
De distribuir beleza
Que cause emoção
E mostre firmeza.

Floresça suas matas e florestas
Para que frutas germinem
Que aos famintos alimentarão,
Não os deixando ao desamparo
E coibindo preconceito.
Seja uma primavera colorida
Desde que em variadas cores,
E tua passagem será cumprida
Substituindo com alegria
A rigidez triste do inverno.

Seja a antítese do sofrer.
Seja a juventude,
Seja o amor envolvendo todo o meio.
Seja primavera, nela e sempre!


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Partiu



Surgiu como prelúdio de brasa
A espera da palha
Pra gerar o fogo,
Que aquece a alma,
Que ilumina a vida.

Foi-se...

Nada deixou.
Levou meu anseio,
Saiu do meu meio.
Egoísta mesmo.

Ficou a nostalgia no vazio,
Após sua etérea vida,
Em que alimentou sonho,
Embalou adormecer.

Não vingou no tempo,
Não aconteceu,
Só legou tristeza pelo que não foi.
Foi-se sem nunca ter sido...


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Triangulo amoroso na matemática


Contando conto ambientado nos princípios da geometria espacial


Um triângulo é formado por três pontos distintos e que não estejam numa mesma reta. Esses três pontos, unidos dois a dois determinam retas que se prolongam nos dois sentidos em direções ao infinito...

Infinito... como será o infinito? Conhecemos bem o finito, os fins que nos deparamos pela vida.

O amor, dizem os apaixonados, é infinito, sem medida e sem peso. É linear, é uma reta determinada pelos corações amantes que a criam. Mas no universo existem muitos pontos fora dessa reta apaixonante, que geram outras retas e essas encontram outras retas em seus pontos comuns e se cruzam e determinam triângulos e outras figuras geométricas.

Uma reta apaixonante foi determinada por Diogo e Iara para se fortalecer e se desenvolver em direção ao infinito, única, encontrando retas transversais pelo caminho. Por um tempo foi uma reta harmônica, viajando num feixe de retas paralelas, tranquilas como as águas de um lago. Um dia Flora reluziu em sua reta paralela à reta de Diogo e Iara e o brilho dela chegou aos olhos dos dois.  E retas surgiram. A determinada por Flora e Diogo, uma reta sedutora de intensa sensualidade e a que Flora e Iara criaram foi de amizade e de interesse. A amizade doada por Iara e o interesse por Flora.

E assim nasceu um triângulo amoroso e no espaço interno determinado por seus lados, os sentimentos se misturaram e interferiram na razão de seus vértices. Diogo não mais sabia a quem amava. Iara distanciou-se de Diogo pela fraqueza que ele demonstrou. Flora pouco se importava com o sofrimento de Iara e na verdade, seu egoísmo até o escondia. E por algum tempo Flora foi dona do espaço, movimentando-se por ele sempre atenta para que a reta de Diogo e Iara não abandonasse seu ponto pessoal destruindo o triângulo, pois ela precisava de Iara para manter Diogo no triângulo. Flora usou de todos seus encantos, de sua sensualidade, de sua sexualidade liberada e também de falsidade. Iara recolheu-se ao seu ponto no vértice dela, deixou o espaço triangular para Diogo e Flora. E Iara sofreu calada assistindo a dança copular dos dois pelo espaço livre.

O erro de Flora aconteceu quando ela quis determinar uma reta apaixonante com Diogo. Iara rompeu o ligamento de amizade entre seu ponto e o de Flora, desfez a reta apaixonante com Diogo transformando-a em amigável, ou fingindo ser assim e foi conquistando o espaço triangular, tornou-se a rainha dele.

A determinação de Iara mostrou ao Diogo todo amor dela por ele. Não foi preciso palavras, nem beijos. Bastaram os olhares, os sorrisos os toques e carinhos românticos e verdadeiros. Bailaram embalados pela paixão numa música somente ouvida por eles e assistida por uma Flora enciumada e rejeitada que em fúria, destruiu as retas traçadas com Diogo e com Iara. Foi o fim do triângulo e a reta apaixonante de Diogo e Iara retornou seu caminho suave, no feixe de paralelas, em direção ao infinito do amor.

................................................


Desculpe meu leitor, mas fazia tempo que não viajava pelos elementos matemáticos e hoje fui por eles intimada a colocá-los na minha escrita. Até fui chantageada com a afirmação de que se continuasse ignorando-os, toda matemática que conheço abandonaria minha mente... Já pensou? Anos de estudos partindo?  

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A Ceia



Contando Conto

Conheceu Conceição. Comprovou coerência, constância no vigiar seu lar perfeito, alegre, limpo, percebeu reflexo.
Convexo.

Procurou alguém audaz, estritamente racional, encontrou em Racine, perfeitamente.
 Espelhadamente.

Empresária do amor achou em Leonor. 
Espelhou com rigor.

Sensibilidade que enleva e que atormenta, que cria, percebeu em Leonardo, efeminado.
Sentiu-o assemelhado.

Em Amanda enamorada adolescente, viu paixões eternas de vidas breves. 
Imagens leves.

Insensatez, alheamento, despreocupação, descobriu em Rocco, louco. 
Um foco óptico.

Retratou futilidade e luxuria e inveja e ciúmes na Fúlvia sem temperança. 
Semelhança.

Convidou-os para a ceia. A todos. Um a um chegaram surpresos, receosos. Eus, o mordomo introspectivo, recebeu e os acomodou numa sala de luzes várias, brilhantes, vibrantes; de poltronas confortáveis, escuras; de tapetes macios, vermelhos; de paredes completamente espelhadas, disfarçadas.

O conviver inicial é um analisar mútuo, silencioso, observado por Eus. 
O manifestar primeiro é de Rocco que inicia um rodopiar, mirando-se nos espelhos, que também atraem Fúlvia, que ajeita os cabelos e alisa o cetinoso vestido com as mãos, balançando pulseiras de ouro, reluzindo brilhantes e se pesquisa em todos os ângulos. Conceição ergue-se e, num andar flutuante, deslizante, sem leve ondular do tecido branco, discreto, de sua vestimenta simples, aproxima-se de Eus e queda-se a seu lado. 
Leonor languidamente sentada, pernas longas, perfeitas, generosamente expostas, cruzadas, principia um proclamar de seu viver. 
Empertigado, dentro de um terno cinza de talhe perfeito, Racine é só movimentar dos olhos e da expressão facial com o olhar perdido nas infinitas imagens refletidas.
Amanda inicia um entoar de hinos de amor que encanta Leonardo, que procura achegar-se de Fúlvia ou de Leonor, que o repelem. 
Leonardo chora. 
Conceição, intimidada, esconde os dedos sem anéis, consola Leonardo e com o olhar recrimina Fúlvia e Leonor. 
Leonardo chora. 
Racine desdenha Leonardo, debocha de Amanda, aprova os atos de Leonor, dirige olhares insinuantes à Fúlvia e ignora Rocco e Conceição. 
Leonardo chora ... Leonardo insensível. 
Amanda adormecida. 
Fúlvia moderada. 
Rocco plácido. 
Leonor fenece. 
Conceição inconsciente. 
Racine alienado. 
Eus pálido, cai sobre o tapete, desfalece aflito. 
Conflito...

E ela assiste, na sala contígua de parede transparente com visão absoluta, mas oculta, deitada placidamente sobre almofadas lilases. 
Análise... 

E os vê credores, nos espelhos reveladores. Fixa o olhar no Eus combalido, esquecido, que inicia um despertar abatido. O Eus servil, eternamente presente, internamente solvente, ergue-se energizado pelo dever e, retorna o Racine racional, o Leonardo sensibilizado, a consciência à Conceição, a insensatez à Rocco; rejuvenesce o amor lucrativo de Leonor; futiliza Fúlvia; acorda Amanda enamorada. Eus sabe que ela os quer exatamente como são. E os inebria com vinho e licor.
Interior...

Cerimoniosamente, Eus abre as portas camufladas nos espelhos, os guia até a mesa da ceia, distribui seus lugares. Pede licença com mesura e retira-se. Minutos após, retorna antecedendo Eva e a escondendo com seu porte até alcançar a cabeceira da mesa, quando todos a veem e, admirados, rendem-se identificados.
Harmonizados...

Eva cumprimenta-os com sorrisos. Eus ajuda a sentar-se. Com um gesto, Eva sinaliza-lhe o iniciar da ceia. Eus serve a todos com a mesma gentileza. 
Eva observa Conceição conversar brandamente com Fúlvia, 
Racine doar instantes de razão a Rocco e incentivar Leonor sob o olhar atento de Conceição. 
Eus enche as taças com vinho.
Leonardo e Rocco trocam experiências. 
Amanda e Leonor encontram afinidades. 
Rocco e Fúlvia se entendem. 
Conceição e Eus – atração espontânea – conversam. 
Eus serve vinho. 
Eva, anfitriã agora assumida, ergue a taça e brinda seus amigos. 
Eus serve vinho. 
Eva sorri. 
Eus serve vinho. 
Eva viva. 
Eus serve vinho.

AVE EVA ...