segunda-feira, 19 de março de 2018

Sabedoria Canina





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Tenho um vizinho feio que tem um cachorro feio, preto de pernas curtas e corpo roliço, focinho achatado, cabeça quadrangular orelhas pontiagudas e pequenas e olhos esbugalhados. Mas tem pedigree que o dono feio exibe, é um budolgue francês diz, oui monsieur, lhe digo. Mas até que o cachorro feio achei simpático depois que o conheci. Mas o dono feio do cachorro feio não, ao conhecê-lo me pareceu mais feio e pior, me deu a sensação de se considerar ser a concretização de meus sonhos românticos e sensuais. Recebo elogios dizem que sou bonita, e minha cachorrinha é uma poodle branca, bem cuidada, escovada, banhada semanalmente, alimentada com rações finas, elegante no andar de pernas proporcionadas e patas que parecem que calçam sapatos de saltos. O cachorro feio do homem feio cada vez que sente minha cachorrinha por perto, solta uivos longos e apaixonados e ela, soberba, se faz de surda. E eu sou surda e cega às tentativas desajeitadas, mas convencidas, do vizinho feio.

O cachorro feio conseguiu despertar minha simpatia por ele, seu olhar é tímido mas profundo e comecei a sonhar com filhotes dele e da minha poodle, imaginei-os branquinhos e graciosos como ela e simpáticos e amorosos como ele. A hora em que saia com minha linda cachorrinha para se exercitar coincidia quase sempre de encontrar o feio convencido com o cachorro feio simpático. Conversamos algumas vezes enquanto os cachorros trocavam latidos. Acabamos combinando um namoro entre nossos cães até que a natureza possibilitasse a consumação do ato de amor canino.

O homem feio não desistia de tentar me seduzir com olhares estranhos e posturas de que não enxergava minha beleza que tantos admiravam. Minha cachorrinha linda não mostrava nenhum interesse pelo cachorro feio, até ao contrário, cada vez rosnava mais para ele. Será que eu transmitia minha antipatia pelo dono do cachorro feio para ela? Resolvi disfarçar, sorrir para o vizinho feio convencido, conversar sobre outros assuntos que não fossem os cães, na esperança que minha poodle simpatizasse com o buldogue francês, oui monsieur, dele.

Quase um mês de encontros diários e minha cachorrinha linda cada vez mais irritada com o cachorro do homem feio que agora já nem reparo na feiúra, pois ele é simpático, educado, gentil, inteligente, sincero, culto e tímido, como confessou. Meu esforço e do homem feio para que minha poodle aceitasse um caso de amor com o buldogue francês, oui monsieur, não obteve êxito e desistimos de continuar sendo cupidos caninos. A sós conversei muito com ela, perguntei-lhe se morreria virgem se não queria conhecer o prazer da vida, ela deitava a cabeça sobre as patas e fechava os olhos enquanto eu falava e falava sobre as qualidades do cachorro feio. Um dia descobri o motivo, uma vizinha tinha também um cachorrinho lindo, um poodle macho e a minha linda estava enamorada dele. Aceitei, quem sabe numa outra vez ela mudasse de ideia, mas antes a chamei de egoísta, pois só pensou nela e eu, perguntei-lhe, como faço pra conversar com o homem feio que agora me atrai. Hein, sua ingrata?

Como não sou uma cachorrinha boba, demonstrei minha simpatia pelo homem feio, que se tornou lindo e me beijou e depois nos amamos muito e tornamos e retornamos e até queríamos morar juntos, mas minha poodle linda não o aceitou com seu cachorro feio e nem sem ele, então cada um na sua casa e está bom demais. Obrigada minha cachorrinha linda e sábia..

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Baile de mascara



Artur e Rita decidiram comemorar o aniversário de dez anos de casamento com um cruzeiro e festejariam também os dias de carnaval. Preparam-se para a viagem com romantismo, planos de se amarem ao balançar do navio e se beijarem no convés sob a luz das estrelas e com a brisa do mar. Queriam reviver o tempo de namoro.

O roteiro definido e as atividades catalogadas, entre elas, o baile de fantasia e máscara na terça-feira de carnaval. Combinaram que um não saberia a fantasia do outro. Embarcaram dois dias antes do carnaval. Foram dias de sol e alegria, de gente bonita e feliz ao redor, com o serviço a bordo mais que agradável que fizeram com que, Artur e Rita se descobrissem outros, outros e felizes e apaixonados.

Na noite do baile à fantasia, combinaram não se verem fantasiados Artur se vestiria primeiro. Rita ficou pelos salões do navio, pelo convés contando estrelas, enquanto Artur se fantasiava. No horário combinado ela foi para a cabine, seria sua vez de fantasiar-se.

Quando Rita chegou ao salão do baile com maquiagem ousada, peruca de cabelos diferentes dos seus e lentes de contato para mudar a cor de seus olhos. Muitos passageiros já estavam lá com suas fantasias e máscaras. Rita estava ansiosa para descobrir Artur entre eles, vasculhando com o olhar os participantes, quando ouviu a voz conhecida dizer:

_ Aceita essa taça de vinho, linda feiticeira?

_ Obrigada, Rita responde.

Depois de galanteios, ele a convidou para dançar. Rita resolveu fazer o jogo dele e o  tratou como desconhecido. Fez-se sedutora, sorrisos enigmáticos, vislumbres de promessas, nem ela se reconhecia nos jeitos e trejeitos e na sensualidade que ousava.

Artur fez sua contraparte no jogo, um perfeito sedutor, olhares através da máscara exclusivos para ela, apertava-a contra seu peito na dança, sua mão deslizava em suas costas, até onde alcançava, e ela às vezes o afastava delicadamente, fitando seus olhos de modo provocante. Depois de outras taças de vinho e algumas danças, Artur a levou para fora do salão, até o convés vazio e ali, beijos ardentes...

Debruçados na grade do convés, abraçados olhando a lua refletida no mar, aos poucos suas razões retornam ao normal. Depois de uns minutos Artur diz:

_ Foi uma sensação incrível beijar você, nunca esquecerei! Mas me desculpe, preciso encontrar minha mulher que deve estar me procurando. Beijou-a na testa e entrou no salão.

Rita nem sabe quanto tempo ficou ali, pode ter sido um minuto ou horas. Dirigiu-se à cabine, tirou a fantasia, vestiu-se e foi andar pelas dependências do navio. Quando já amanhecia foi para cabine e encontrou Artur banhado, de pijama e preocupado com seu sumiço. Rita não falou sobre o acontecido, ele também não.

Nos dias que ainda ficou no navio, Artur procurou disfarçadamente, pela feiticeira e ao descer do navio levava o coração triste, junto com uma Rita decepcionada e decidida a acabar com o casamento.

Como aceitar que ela mesma foi a outra?  


Artur concordou com a separação, queria a liberdade para procurar a feiticeira, daria um jeito de ver a lista de passageiros, contrataria detetive, precisava encontrar a mulher que o enfeitiçou...


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Manual da máquina da vida




INSTRUÇÕES DE USO

Coração

Se o coração for sobrecarregado com maus usos, poderá prejudicar seu funcionamento e até mesmo ocasionar uma pane total na máquina.

Seja atento às seguintes precauções:

- Não exponha seu coração à falsidade, ou soberba, ou revolta, ou inveja, ou vingança.
- Evite situações inúteis que o coloque em pressão, por exemplo, obrigá-lo a mentir a si mesmo, ou paixões criadas pelos sentidos e infladas pela ilusão.

Para um perfeito funcionamento de sua vida, além desses cuidados, é necessário manter seu coração fortalecido, para isso não economize em amor, solidariedade, perdão, esperança, sinceridade e humildade.

Mente

Ela que sobrecarrega o coração e também dela depende o fortalecimento dele. Só ela é a responsável, outras mentes não possuem esse poder, por mais que muitos a desculpem das sobrecargas negativas delegando as causas às mentes de outros.

Atenção e cuidados com sua mente para que todos componentes e periféricos e programas instalados ao nascer, funcionem de forma harmônica:

1.     Evite excesso:

- De lembranças, pois elas acarretam depressão;
- De ansiedade que o levará a viver um futuro que no hoje não existe;
- De obsessão pelo presente, paciência é necessária.

2. Crie arquivos mentais que deverão ser facilmente acessados:

- De autoconhecimento, pois eles ajudarão a não julgar e aceitar deficiências de outros, já que aceita as suas.
- De espiritualidade vivendo a sabedoria de Deus, criando sua luz interior que refletirá cada vez mais, na essência do seu ser.
- De vínculo com todos que amar, para que não reste somente o parentesco ou o conhecimento superficial.
- De lixeira mental que autodestrua os arquivos perniciosos ao coração, que enviará a ela os excluindo da mente.

3. Acesse e faça uso do programa “criatividade”, pois criar é necessário e pensar faz bem.

Ter a máquina da Vida é nascer e desenvolver, errar e aprender, ver e enxergar, procurar amor e fugir de desamor, aceitar o imutável, enfrentar com fé os monstros do caminho...

E com bom uso da máquina, Viver Feliz!



quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Ano novo vida nova?



Todos os anos procuro encontrar diferenças no primeiro dia de janeiro. Bem, até que nesse dia acontecem diferenças, acordo de mau humor pelas poucas horas de sono e com gosto de cabo de guarda-chuva na boca pelos excessos noturnos, pia cheia de louça, copos e talheres para serem lavado, almoço de sobras da ceia requentado, aí lembro que estou no novo ano e que devo me programar para ser feliz nele.

Está bem, vou fazer esse programa de felicidade:

1-     Não subo mais numa balança.
2-     No espelho me olho sem os óculos, pois a natureza é sábia, conforme chegamos aos "anos entas" a visão vai ficando cansada e não enxerga detalhes.
3-     Opiniões alheias sobre minha pessoa, não quero saber, a menos que me garantam que irei ouvir somente elogios.
4-     Vou aposentar todos os sapatos de salto maiores que seis centímetros.
5-     Não comerei mais coisas verdes, decididamente, não sou coelha.
6-     Chocolates, vinde a mim, de todos os tipos, bombons, em barras, sorvetes, mouses...

E serei feliz?

O que é ser feliz? Seria sensação de alegria constante?

Alegria constante só em corpo saudável com mente sã e muito amor no coração.

Então é isso, saúde e amor é a chave da felicidade.

A chave mestra é o amor, ele instalado traz saúde para o físico, pois quem é um ser amoroso, também se ama e se cuida. Quem ama todo tipo de vida na terra, traz um sorriso constante, transmite paz ao seu redor, ama o ser e não o ter.

Confesso que comecei a digitar esse texto com a intenção de compor uma mensagem de final de ano a você, meu leitor, e não sabia o que escrever e enrolei ali no começo, como você viu. E do rolo que formei cheguei a essa constatação, então já posso dizer:

Que em 2018 seja muito saudável e que o amor se instale em seu coração.

Para mim, além de saúde e amor, desejo simplesmente que nada piore e tudo se mantenha como hoje, não que esteja um mar de rosas, mas sei bem que sempre pode piorar o que não está lá uma maravilha.





sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Para viver meu Natal



Vou olhar com olhos do coração
Lembrar o sentido da vida.
Perdoar quem me ofendeu,
Alegrar os tristonhos,
Ofertar presentes,
Festejar o dia.

É Natal!

Nasce Cristo,
O Verbo fez-Se carne,
E nasce em nós
O Amor e a Paz. 

Somente aqueles que se abrem ao amor, são envolvidos pela luz do Natal...

Vou rogar para que meus familiares, meus amigos pessoais, meus amigos virtuais, alguns deles os sinto quase reais, todos que leem meus escritos, meus vizinhos, todos com quem cruzo ou cruzei pelos caminhos dos meus dias e também aos que nunca vi ou esbarrei...
Que esse Natal aconteça:

Com explosão da Alegria, com vivência do Amor, com tranquilidade da Paz.

Hilda


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Esparsas...




Se não existisse o feio, nada seria belo,

A paz não precisa da guerra para acontecer.

O vaso pode ser torto, mas me acostumo e o vejo perfeito.

Envelhecer o corpo é da vida, aprimorar a mente é de nós.

Na ida é longo o caminho, na volta ele diminui.

No caminho sem volta, busca-se um atalho reparador.

No início a beleza encanta e impera, mas logo é preciso mais.

Encontrar amor não é o difícil, mas sim conservá-lo.

A felicidade vem com dificuldade e se vai ao menor descuido.

O maior desafio é ser fiel.

A verdade de um não é a do outro.

O silêncio oportuno fala mais alto.

Buscar consolo no colo da mãe natureza é o segredo.

Viva, é a minha idade.

Descobrir o espelho verdadeiro é a dificuldade.

Para mudar a rota, dê o primeiro passo agora.


Agora já é outro agora...



sábado, 18 de novembro de 2017

Tanto e quanto



Sou tanto pedra quanto flor.

Sou tanto e não quanto, amar.

Sou tanto erro e não, quanto acerto.

Sou tanto racional quanto sonhadora.

Sou não tanto dócil e sim, quanto controle.

Sou tanto eu como quanto nós.

Sou tanto pedir perdão como quanto perdoar.

Sou tanto vibrante quanto indiferente.

Sou tanto angústia quanto felicidade!

Quanto e não sei tanto me conheço, portanto me desconheço.


domingo, 12 de novembro de 2017

Como chegar ao futuro?

Amplo Horizonte, 1969 - Theodoro De Bona (Brasil, 1904 – 1990)

Será que somente eu sempre pensei no futuro como um tempo inalcançável? O via como o horizonte, sei que existe e meus olhos o comprovam, mas não se chega até ele.

Também, desde pequena ouvi que precisava estudar para ser vitoriosa no futuro. E pensava: Só no futuro? E cresci com essa ideia, precisava estudar depois trabalhar, lutar, disputar, amar, chorar e rir, poupar, sofrer e perder com paciência, tudo para ter um futuro feliz. E não alcançava o futuro, parecia que a cada passo que dava em sua direção, ele se afastava dois.

Até hoje ouço esse dito popular:

“O futuro a Deus pertence.”

E ao ouvi-lo concluía: Então se é Dele, nunca será meu, para que me preparar para ele, meu prometido impossível? Noivado eterno. Parceria sem compromisso. Alimento para sonhos ou antídoto para desilusões.

E no percurso pelo caminho ao futuro, colhi vitórias, ganhei amores, sofri dores, venci desafios, conquistei sonhos e nada de chegar ao futuro, à terra prometida.

De repente minha razão condoeu-se de minha espera e me segredou:

Os diplomas, as conquistas, os amores, as dores também, os sonhos realizados, um a um, também as derrotas tudo, tudo que viveu até aqui, foram futuros alcançados.

Sim, é isso!

O agora é o futuro!

E eu não comemorei meus dias do futuro, tão envolvida que estava na procura de como chegar a ele... 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

PINCE-NEZ



Ele usava óculos desde criança. Miopia, daquelas que sem óculos só se enxerga um metro à frente. Na adolescência tentou usar lentes de contacto e não se adaptou a elas, seus olhos choravam o tempo todo. Acostumou-se com os óculos.

Tornou-se um professor de óculos. Com os anos, um professor de óculos e gorducho. Mais um tempo, um professor de óculos, gorducho e meio calvo.

A mãe, já viúva, faleceu e ele, sendo filho único, desmontou a casa dela, doou seus pertences, guardou as fotos e os óculos, que a mãe dizia ter sido do bisavô dela. Aqueles óculos o encantavam desde criança, como era mesmo que a mãe dizia chamar? Acho que era pinci-nez, e ela contava que era do século XVI. Era dourado, seria de ouro, ele se perguntava.
        
E quando o colocou no nariz, viu que as lentes estavam corretas para sua visão.

Guardou os óculos numa gaveta, e de vez em quanto o colocava e cada vez mais a atração por ele aumentava. Era uma raridade, queria usar, exibir-se com ele. Num feriado resolveu, colocou os óculos e saiu, andou pelas ruas, percebeu olhares, não sabia se eram curiosos ou de admiração pela beleza dele. Não encontrou conhecido ou amigos que poderiam fazer comentários. Voltou pra casa e continuou com ele, a mulher ainda perguntou:

_ Por que isso agora? Cadê seus óculos?
_ Sei lá, estou me sentindo tão bem com esses.
_ Você que sabe, mas é estranho, diz ela.

No outro dia caprichou no visual ao se preparar para as aulas. Pegou um guarda-pó, branco, lavado e bem passado. Ao entrar na sala de aula, os quarenta adolescentes, momentaneamente se calaram, mas logo depois muitos riram. Ele percebeu. Os colegas também fizeram piadas, ele inventou que havia quebrado os óculos antes de sair de casa.

Ao chegar a casa, a primeira coisa que fez, foi voltar para seu óculo habitual. O engraçado foi que a visão com ele ficou turva. Pensou que logo acostumaria...

Consultou um oculista que depois de examiná-lo receitou outras lentes, foi a uma ótica encomendar as lentes, colocou os óculos e a visão estava turva, voltou ao oculista que o reexaminou e confirmou as lentes e as lentes continuavam sem melhorar sua visão. Foi a outro médico, que lhe receitou outras lentes, fez outro óculos em outra ótica, e o resultado continuou o mesmo, e procurou outro médico, outra ótica, outro óculos...

Somente com o pince-nez enxergava...


Passa-se a acreditar naquilo que se repete frequentemente para si mesmo, quer seja verdade ou mentira. Isso passa a ser um pensamento dominante na mente.

Robert Collier   (1885-1950)      


sábado, 21 de outubro de 2017

Historia de um domingo



Historinha para Domingo

_Parem de brigar e arrumem alguma brincadeira! Ela ordenou aos filhos.

_ Meu Deus, preciso de alguém que me ajude! Não dou conta de tudo sozinha!

O marido nem ouvia, entretido pela música que tocava e ele até acompanhava o ritmo batendo com os dedos no sofá. Final de semana é para descansar...

_ Venham almoçar, ela chama filhos e marido.

Acabado o almoço todos se retiram da mesa, só ela fica sentada, olhando para a louça e talheres que precisam ser lavados. Se não tivesse dispensado a empregada, faria como antes, arrumava numa bacia e deixava para ela cuidar na segunda-feira e a roupa também. É verdade que tudo mal feito, mas ela, com o pouco tempo dos finais de semana fazia ainda pior! E sairia para o trabalho já cansada e irritada pela demora dos filhos em tomarem o café e pegarem seus materiais da escola, onde ela os deixaria. Estava nesses pensamentos quando o interfone toca e ela atende:

_ Queria falar com a senhora, procuro trabalho em casa de família.

Seu primeiro impulso foi dizer que não. Como contratar alguém dessa forma? Mas quando olhou para a mesa, resolveu...

_ Vou conversar com você.

Era nova, perto dos trinta anos, não tinha referências, pois era sua primeira tentativa como empregada doméstica. Mas seus olhos transmitiam paz e seu sorriso bondade.

Ela resolveu experimentar o trabalho da Graça, o nome dela. Tomaria todos os cuidados necessários para não ser surpreendida em furtos. A moça trazia pequena bagagem e ela a acomodou num quartinho da área de serviço, no meio de roupas para passar, brinquedos, ferramentas e vassouras, e tudo o que não queria dentro de casa.

Graça a cada dia a surpreendia em seu trabalho e sempre com o mesmo olhar e sorriso. Aos poucos tudo ficou em ordem, organizado e limpo. As crianças estavam mais tranquilas, alegres, o marido participante das questões dos filhos, ajudava-os com as lições e aos seus pedidos, até rezava junto com eles ao deitarem, as orações que Graça os ensinara. 

Ela estava feliz, tinha agora algum tempo só para si, coisa que desde o nascimento do primeiro filho se tornara impossível. Graça depois de um tempo passou a fazer as compras de supermercado, a ajudar as crianças se preparem para a ida à escola e passou a leva-las também. Mas ela continuou com todos os cuidados iniciais, ouviu o conselho das amigas para não amolecer com a empregada, pois isso a faria sentir-se necessária e relaxar no trabalho e também, não criar intimidades entre elas, ser sempre a patroa e ela, a empregada.

Num domingo, a família acordou e juntos foram tomar o café da manhã. Encontraram a mesa bem arrumada como sempre, bolo ainda quente, pães, sucos, frios e frutas, queijo, geléia e mel, mas estranharam a ausência da Graça. E surpresos notaram que ela se fora...

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“Elias há de vir para repor tudo em ordem; digo-vos, porém, que Elias já veio; e não o reconheceram, mas fizeram dele o que quiseram.”  Matheus 17, 5-18, 11


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Assim aconteceu...


Contando conto

O relógio marcava doze horas, o sol lançando seus raios de luz sobre à cidade. Uma única nuvem no céu deslocando-se devagar até chegar à frente do sol. Talvez o calor solar a agradou, pois ela estacionou e lá ficou.

Toda escura, toda sombrosa.
Não era uma grande nuvem, mas seu tamanho foi suficiente para tirar os raios do sol que incidiam sobre a cidade.

Ninguém da cidade notou a nuvem adormecida frente ao sol naquela quinta-feira. Todos ocupados em suas vidas e nem notaram que à noite o céu só exibia estrelas, sem lua.

Amanheceu a sexta-feira e quando o sol se mostrou trouxe consigo a nuvem, ou a nuvem o acompanhou em todas suas visitas a outras paragens da Terra? Alguns notaram a nuvem imóvel. E na noite de sexta-feira apaixonados procuraram a lua e trocaram carinhos sem ela.

O sábado clareou trazendo a nuvem junto ao sol. Nesse dia muitos estranharam que apesar do céu azul não viam o brilho nas folhas das árvores e nos gramados e nas cores das flores. Mas não procuraram pelo sol, simplesmente ignoraram. Que importância tinha isso? Outros perceberam que sua sombra não caminhava mais junto deles, presa a seus pés, como nos dias de céu azul acontecia. Um preocupou-se... não tenho mais sombra? Não sou mais matéria? Morri? E olhou pro sol. Outros também olharam, e outros, e os amantes amaram-se sem lua.

Domingo nasceu também acompanhado da nuvem teimosa. A cidade em tumulto, a praça lotada de pessoas olhando para o sol com seus raios escondidos pela nuvem constante. Os repórteres de televisões entrevistando moradores, câmeras posicionadas em direção do sol escondido. Curiosos de outras cidades e jornalistas chegando para conferir o mistério. Alguns se perguntavam:

_Será efeito do buraco na camada de Ozônio? Ou causa da poluição do ar, do mar e dos rios? Ou do desmatamento? Ou é o fim do mundo?

Crianças assustadas, nem brincavam. Uma delas chama amigos e propõe:

_Vamos cantar para o sol? Quem sabe ele espanta a nuvem!

O coro infantil atraiu todas as crianças assustadas e juntas cantaram para o sol:

olho pro céu e vejo uma nuvem branca que vai passando...
olho na terra e vejo uma multidão que vai caminhando...
como essa nuvem branca essa gente não sabe aonde vai...

A nuvem, vagarosamente, foi se desfazendo aplaudida por todos na praça e... Fez-se a Luz, enquanto as crianças ainda cantavam: 


olho pro céu e sinto descer à terra o meu Salvador ...